O chá sussurrado




28/02/2004 17:32
Domingo, 23:33, ouvindo Transformer, do Lou Reed. A lista da Stone.

Desde o lançamento de Alta fidelidade, de Nick Hornby, as listas se tornaram um fetiche e, ao mesmo tempo, um ritual fundamental no cotidiano pop do mundo contemporâneo. Assim, como eu poderia me mostrar indiferente à recente lista dos 500 melhores discos da história, lançada pela revista inglesa Rolling Stone?
A lista tem, certamente, seus méritos e seus defeitos; como já nos advertia Rob Gordon, qual lista consegue contemplar tudo e todos? Listas devem ser diretas, sem frescuras ou critérios como objetividade/subjetividade – parâmetros completamente vagos e, na verdade, quase metafísicos. Uma lista é a expressão de uma verdade, de um interesse. No presente caso, de quem? Da indústria da música contemporânea, de um bando de dinossauros ainda entronizados no poder, dos jovens que ainda dedicam seus salários surrados à compra de discos, aos clubes e às rádios? Ou a Stone estaria apenas tentando revitalizar o mercado fonográfico? Todas essas respostas certamente não esgotam o campo dos possíveis à nossa disposição nessa discussão, e mesmo todas elas combinadas talvez não possam responder plenamente à indagação inicial. Talvez essa lista seja apenas uma “brincadeira”, que eles fizeram apenas para matar o tempo... De qualquer modo, eu gostaria de comentar essa listinha...
Merecidamente, alguns nomes antológicos ocupam posições de destaque: dos 10 primeiros, 4 são dos Beatles (o meu favorito é o Revolver). O Pet souds, dos Beach Boys, vem em segundo, um clássico absoluto. Dos 10 +, dois ainda vão para Bob Dylan – o que talvez seja um exagero, aliás, como 4 Beatles... Algumas menções importantes: Astral weeks, do Van Morrisson, em 19; o Blue, da Joni Mitchell, em 30; e o Rumours, do Fleetwood Mac, em 25.
Dos 100 +, é notória a esmagadora presença dos anos 60/70; pouquíssimas bandas mais novas conquistaram espaço: Nirvana, U2 e Guns n’ Roses – o que certamente é um absurdo.
O número de bandas injustiçadas com posições ridículas é tão alto que tenho até medo de comentar; de qualquer modo, vamos lá: o primeiro disco do Bowie a ser laureado é o ultra-clássico Ziggy Stardust, em 35... Maior espanto causa a posição de The dark side of the moon de todo-mundo-sabe-quem: 43. Muito bizarro é ver bandas extremamente conceituadas com posições indecentes, como é o caso de Neil Young (primeira aparição em 71), Cream (101) e Jefferson Airplane (146). Como justificar a posição do lendário Aqualung, em 337? Ou de American beauty, do Grateful Dead, em 258? Tenho até vergonha de apontar a posição de Raw power, dos Stooges: 125 – com essa, Lester Bangs invadiria a redação da Stone e mataria um por um. Vergonha ainda maior: Transformer, do Lou Reed (esse que estou ouvindo), só aparece em 194, uma posição depois do Green Day (o Lester mataria os caras da banda, mesmo detestando a fase andrógina de Reed). Alguns discos simplesmente vitais para a história da música pop, considerados geniais, explosivos ou determinantes estão bem colocados, como é o caso de Nevermind do Nirvana, London calling do Clash e Never mind the bollocks; mas outros estão à mingua, como o Closer, do Joy Division (157), o Ten do Pearl Jam (207), o Doolitle dos Pixies (226 – não tinha recebido segundo lugar, um dia desses?) e o Psycho candy do Jesus & Mary Chain (268). Sem falar em Odelay, de todo mundo sabe quem: 305. A primeira aparição do Radiohead só se dá na posição 110, com The bends. Ao que parece, a revista resolveu dar uma de conservadora, esfriando um pouco o culto à nova fase da banda, que emplacou ainda o célebre Ok computer em 162 e Kid A em 408. Mas como podem os Smiths aparecer na esdrúxula posição 216, com The queen is dead? Onde estes caras estiveram nas últimas décadas? Bandas importantes em posições indecentes: Black Sabbath (130), Sonic Youth (329), Moby (341), Smashing Pumpkins (360), Björk (373), PJ Harvey (405), Portishead (419) e Hole (466). É incompreensível como o genial Mezzanine só venha a aparecer em 412, depois do Blue lines (395), o álbum menos inspirado do Massive Attack. Da nova safra, “a salvação do rock”, só duas bandas emplacaram: Strokes (367) e The White Stripes (390). Ilustres ausentes: Stone Roses, Primal Scream, Pulp, Placebo e Suede.
Agora, mais raiva causa ainda um número enorme de desajustados que não só apareceram na lista, como em posições completamente imerecidas. Como o novíssimo All that you can’t leave behind do U2 pôde aparecer antes do clássico War? Por que motivo o Pavement apareceu em 134? E por que porra de motivo o Eminen emplacou 3 discos de sua pífia carreira? Outro nome que causa arrepios é o do No doubt, que emplacou 2 de suas maiores pérolas...
A iniciativa da Stone é muito boa, sem falar na referência ultra-especial à Alta fidelidade - 5 x 100 = ... Mas algumas posições e escolhas são absurdas, sem falar na falta de critérios. É possível incluir discos de jazz em uma seleção de música pop? Se esse gênero fosse levado à sério, deveria ocupar as primeiras posições, sem sombra de dúvida. Agora, se realmente valesse tudo, é evidente que a lista deveria ser liderada por Beethoven, Bach, Mozart, Chopin e Wagner!!!! É interessante avaliar a posição das bandas novas ao lado das clássicas, mas na maioria dos casos a distância é grande e injustificada demais; por outro lado, as bandas novas que alcançaram posições mais altas, como Nirvana e The Clash, estão devidamente alocadas? Ou suas posições indicam apenas modismos?
Vale ressaltar, esta foi uma grande iniciativa da Stone; estamos diante de um fenômeno cultural que merece alguma atenção e que, de algum modo, servirá como um divisor de águas. Nossas referências se limitam à extensão de nosso universo pessoal; eu mesmo não conheço a metade dos discos citados. É evidente que as escolhas dos críticos estão ligadas à suas vivências, aos momentos que eles viveram. Assim, é natural que coisas mais velhas tenham sido privilegiadas; tão natural quanto nossa indignação diante de tantos dinossauros. Devemos nos atentar também para um ponto fundamental: a indústria cultural de outrora não é a mesma de hoje; embora ela exista desde os primórdios do rock’n’roll, e possamos encontrar seus contornos mesmo antes de 53, parece-me que as bandas de 60/70 tinham mais substância do as de 90/00. Pode ser apenas uma nostalgia bizarra, mas de algum modo acredito nisso. Cada época tem suas estrelas, mas poucas delas permanecem brilhando com o passar dos anos. Quantas bandas surgidas nos últimos cinco anos chegaram aos dias de hoje? E quantas ainda vão durar mais 15? Bob Dylan, por exemplo, foi catapultado por um trio esquisitíssimo da década de 60, Peter, Paul and Mary. Hoje ninguém sabe quem eles são, e nem a Stone reconheceu a importância da banda. O tempo, de fato, destrói tudo (e espero ardentemente que destrua o Limp Bizkit). É claro, a próxima lista será muito diferente desta.

enviada por Delli






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