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10/02/2004 17:05
Terça-feira, 17:05, sem trilha sonora. Sophia Andresen.
Estou lendo uma poeta portuguesa, chamada Sophia de Mello Breyner Andresen; suas criações não são espetaculares, mas algumas guardam grande beleza. Aqui vão alguns poemas e fragmentos, enquanto meu texto sobre a lista da Stone não sai:
Nunca mais
Nunca mais
Caminharás nos caminhos naturais.
Nunca mais te poderás sentir
Invulnerável, real e densa.
Para sempre está perdido
O que mais do que tudo procuraste:
A plenitude de cada presença.
E será sempre o mesmo sonho, a mesma ausência.
Níobe transformada em fonte
(adaptado de Ovídio)
Os cabelos embora o vento passe
Já não se agitam leves. O seu sangue
Gelando já não tinge a sua face.
Os olhos param sob a fronte aflita.
Já nada nela vive nem se agita.
Os seus pés já não podem formas passos,
Lentamente as entranhas endurecem
E até os gestos gelam nos seus braços.
Mas os olhos de pedra não esquecem.
Subindo do seu corpo arrefecido,
Lágrimas lentas rolam pela face,
Lentas rolam, embora o tempo passe.
Os deuses
Nasceram como um fruto da paisagem.
A brisa dos jardins, a luz do mar,
O branco das espumas e o luar
Extasiados estão na sua imagem.
Eurydice
[...]
Veio com ar de alguém que não existe
Falava-me de tudo quanto morre
E devagar no ar quebrou-se triste
De ser aparição água que escorre.
Assassinato de Simoneta Vespucci
[...]
Vê como os homens se tornam animais
E como os animais se tornam anjos
E um só irrompe e faz um lírio de si mesmo.
Tu e eu vamos
Tu e eu vamos
No fundo do mar
Absortos e correntes e desfeitos.
Transparente
À tona do teu rosto vêm peixes
E vem comigo
Morto, morto, morto,
Morto em cada imagem.
Morta
[...]
Subitamente
Agarro perco a forma do teu rosto:
Como tu és fresca!
Passas e dos teus dedos correm fontes.
Como tu és leve,
Mais leve do que uma dança!
enviada por Delli
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